Os números sobre câncer de pele costumam ser tratados como um problema "resolvido" nos países ricos, onde campanhas de conscientização, protetor solar e diagnóstico precoce já fazem parte da rotina. Mas um novo estudo publicado na JAMA Dermatology, baseado nos dados do Global Burden of Disease (GBD) 2023, mostra um retrato bem mais complexo: enquanto algumas regiões de alta renda começam a ver certos tipos de câncer de pele estabilizarem ou até recuarem, países de renda baixa e média estão em plena trajetória de crescimento — e devem carregar boa parte do aumento projetado até 2050.
O estudo analisou três tipos principais de câncer de pele — melanoma, carcinoma espinocelular (CEC) e carcinoma basocelular (CBC) — usando dados de prevalência e DALYs (anos de vida perdidos ajustados por incapacidade) entre 1990 e 2023, estratificados por sexo, faixa etária e Índice Sociodemográfico (SDI). A partir desses dados históricos, os pesquisadores aplicaram um modelo bayesiano idade-período-coorte para projetar a evolução da doença até 2050.
Em 2023, o retrato ainda era dominado pelas regiões de alto SDI. A prevalência de melanoma foi mais alta na Oceania, ultrapassando 300 casos por 100 mil habitantes, com os maiores números de DALYs concentrados na Austrália, Nova Zelândia e países nórdicos — regiões historicamente associadas a alta exposição solar, população de pele clara e hábitos de bronzeamento enraizados culturalmente.
O carcinoma espinocelular seguiu um padrão parecido, com prevalência mais alta em países ocidentais de alta renda, especialmente nos Estados Unidos, onde as taxas passaram de 200 casos por 100 mil pessoas. Já os DALYs de CEC se concentraram na Austrália, no Brasil e no Caribe — uma combinação que reforça o peso da radiação ultravioleta em populações com longa exposição solar ao longo da vida.
O carcinoma basocelular, por sua vez, teve maior impacto na Oceania, na América do Norte e no norte da Europa, com os DALYs mais altos justamente na Austrália e na América do Norte.
É na comparação histórica que o estudo revela a tendência mais importante para quem pensa em saúde pública e mercado de dermatologia nos próximos 25 anos. Entre 1990 e 2023, as regiões de SDI baixo e médio registraram aumentos consistentes de incidência nos três tipos de câncer de pele analisados. O crescimento do melanoma foi particularmente expressivo: 258,8% no Leste Asiático e 274,6% na região andina da América Latina.
Ao mesmo tempo, a América do Norte de alta renda mostrou o movimento inverso para melanoma, com queda de 10,5% na incidência — provavelmente reflexo de décadas de campanhas de prevenção, rastreamento e mudança de comportamento em relação à exposição solar. Mas essa mesma região viu o carcinoma espinocelular crescer 154,1% e o carcinoma basocelular subir 34,6%, mostrando que a "vitória" contra o melanoma não se estendeu igualmente aos cânceres de pele não melanoma.
Os DALYs de melanoma caíram globalmente, com quedas mais acentuadas justamente nas regiões de alto SDI — 36,1% na América do Norte e 33,9% na Ásia Central. Em contraste, os DALYs de CEC aumentaram 93,2% nas regiões de baixo SDI. Os DALYs de CBC permaneceram relativamente estáveis no total, mas subiram 45,1% no Leste Asiático e 39,6% na região da Ásia-Pacífico de alta renda.
Homens apresentaram consistentemente prevalência mais alta nos três tipos de câncer de pele. Em 2023, a prevalência de melanoma foi de 28,2 casos por 100 mil homens contra 25,6 em mulheres, com quedas em ambos os sexos entre 2010 e 2023.
A análise por faixa etária mostrou que a prevalência de melanoma cresceu mais entre adultos com 70 anos ou mais, enquanto o grupo de 30 a 49 anos apresentou declínio. Uma análise de decomposição indicou que o crescimento populacional foi o principal motor do aumento em números absolutos de casos de CEC e CBC, enquanto mudanças epidemiológicas — ou seja, aumento real do risco por pessoa — impulsionaram o crescimento do melanoma, especialmente nas regiões de SDI mais baixo.
As projeções feitas com o modelo bayesiano idade-período-coorte indicam que a carga global de câncer de pele deve continuar crescendo nas próximas décadas. Os DALYs de melanoma devem subir de aproximadamente 2 milhões em 2025 para mais de 3,3 milhões em 2050. Os DALYs de CEC também devem saltar de 1,2 milhão para 4 milhões no mesmo período.
O dado mais chamativo, porém, é sobre o carcinoma basocelular: apesar de ser o tipo menos letal entre os três, ele deve se tornar o câncer de pele com a maior carga global absoluta até 2050, aproximando-se de 5 milhões de DALYs — com as regiões de SDI baixo e médio apresentando as trajetórias de crescimento mais acentuadas.
Os pesquisadores foram diretos ao apontar os fatores estruturais por trás dessa divergência. Regiões de alto SDI contam com sistemas de vigilância dermatológica consolidados, exames de pele de rotina e campanhas de conscientização pública havia décadas — o que favorece diagnóstico precoce e, consequentemente, melhores desfechos. Já regiões de SDI baixo e médio costumam enfrentar limitações de recursos especializados em saúde e ausência de programas populacionais de rastreamento, o que pode levar a subdiagnóstico nos estágios iniciais e distorcer parte dos números observados de incidência e prevalência.
Em outras palavras: parte do "crescimento explosivo" registrado em países de renda baixa e média pode refletir também uma melhora gradual na capacidade de detectar e registrar casos que antes passavam despercebidos — o que não torna o problema menos real, mas ajuda a entender a origem de parte desse salto estatístico.
Os próprios autores reconheceram limitações importantes. As estimativas do GBD podem subestimar a carga da doença em cenários de SDI baixo, justamente pela infraestrutura de saúde limitada e pelo subregistro de casos. Além disso, as projeções até 2050 dependem de premissas sobre políticas públicas de saúde e alocação de recursos que podem mudar ao longo do tempo — para melhor ou para pior. Mesmo assim, a consistência dos padrões observados ao longo de mais de três décadas de dados reforça a confiabilidade da tendência geral apontada pelo estudo.
Para gestores de saúde pública, profissionais de dermatologia e formuladores de políticas, o recado do estudo é claro: a estratégia de combate ao câncer de pele não pode ser genérica. O que funcionou na Austrália e na América do Norte — décadas de campanhas de fotoproteção voltadas ao melanoma — não resolve o problema crescente do carcinoma basocelular e espinocelular, nem se aplica automaticamente a regiões com outra estrutura de risco, outro perfil populacional e outro nível de acesso a diagnóstico.
Investir em programas de rastreamento populacional, capacitação de profissionais de saúde para reconhecimento precoce de lesões suspeitas e ampliação do acesso à dermatologia especializada em regiões de renda baixa e média aparece, à luz desses dados, como uma das frentes mais urgentes para conter a curva de crescimento projetada até 2050.
"Regiões de alto SDI se beneficiam de sistemas consolidados de vigilância dermatológica e exames de rotina, enquanto regiões de SDI baixo e médio enfrentam limitações de recursos especializados."
Estudo original publicado na JAMA Dermatology sobre a carga global de câncer de pele entre 1990 e 2023 e projeções até 2050
https://jamanetwork.com/journals/jamadermatology/fullarticle/2848888
Reportagem da AJMC que serviu de base para este post, com a cobertura completa dos achados do estudo
https://www.ajmc.com/view/global-skin-cancer-burden-projected-to-rise-sharply-through-2050-especially-in-low--middle-income-regions
Análise de 2021 publicada na Cancer Medicine sobre incidência, mortalidade e DALYs de cânceres de pele no Global Burden of Disease Study 2019, referência histórica citada no novo estudo
https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/cam4.4046
Página temática da AJMC sobre câncer de pele, com outras reportagens relacionadas ao tema
https://www.ajmc.com/compendium/skincancer
Perfil profissional da autora da reportagem original na AJMC, Brooke McCormick
https://www.ajmc.com/authors/brooke-mccormick