Quando um carcinoma basocelular superficial ou uma queratose actínica aparece na face, na orelha ou no couro cabeludo, o instinto clínico mais comum é tratar a lesão visível — removê-la e seguir em frente. Porém, a ciência mostra cada vez mais que a lesão visível é apenas a ponta do iceberg. Ao redor dela, existe um campo inteiro de pele danificada pelo sol — repleto de células alteradas que ainda não se tornaram tumor, mas que estão a caminho. A terapia fotodinâmica (PDT) direcionada ao campo é uma abordagem que trata não apenas a lesão, mas toda a área comprometida pelo dano solar acumulado — reduzindo o risco de novos tumores surgirem no futuro. Em uma série de discussões publicada pelo Dermatology Times em 2026, o Dr. Neal Bhatia, diretor de dermatologia clínica da Therapeutics Clinical Research em San Diego, apresentou a lógica clínica por trás dessa abordagem e os avanços que estão expandindo o papel da PDT no manejo do câncer de pele.
Neste artigo, o Dr. Fernando Bitencourt, cirurgião de cabeça e pescoço, explica o que é a terapia fotodinâmica, como funciona o conceito de tratamento de campo, por que isso é especialmente relevante para tumores na região da cabeça e do pescoço e o que o paciente precisa saber sobre essa opção.
O Que É a Terapia Fotodinâmica (PDT)
A terapia fotodinâmica é um tratamento que combina um agente fotossensibilizante — uma substância aplicada sobre a pele — com uma fonte de luz especial. O fotossensibilizante é absorvido preferencialmente pelas células danificadas e tumorais. Quando a luz é aplicada, ela ativa a substância, que gera uma reação química que destrói seletivamente essas células anormais — preservando o tecido saudável ao redor.
O procedimento é realizado em consultório, sem necessidade de centro cirúrgico. A substância fotossensibilizante — geralmente o ácido aminolevulínico (ALA) ou o metilaminolevulinato (MAL) — é aplicada sobre a área a ser tratada e deixada por um período de incubação que varia de uma a três horas. Em seguida, a pele é exposta a uma fonte de luz — azul ou vermelha, conforme o protocolo — por alguns minutos. A reação fotodinâmica acontece durante essa exposição e destrói as células-alvo.
O paciente pode sentir ardência, queimação ou desconforto durante a iluminação — sensações que variam de leves a moderadas e que são controláveis com medidas como ventilador, borrifos de água fria e pausas breves. Nos dias seguintes, a área tratada fica avermelhada, inchada e pode descamar — um processo que indica que as células danificadas estão sendo eliminadas. A cicatrização completa ocorre em uma a duas semanas, com resultado cosmético geralmente superior ao da cirurgia.
O Conceito de Campo de Cancerização — Por Que Tratar Só a Lesão Não É Suficiente
O conceito de campo de cancerização (field cancerization) é fundamental para entender o valor da PDT. Quando uma pessoa desenvolve uma queratose actínica ou um carcinoma basocelular superficial em uma área cronicamente exposta ao sol, isso significa que toda a pele ao redor também sofreu dano ultravioleta acumulado ao longo de anos ou décadas. Esse dano invisível — que não se manifesta como lesão visível ainda — representa um campo inteiro de células pré-malignas prontas para se transformar em novas lesões.
Tratar apenas a lesão visível — com cirurgia, crioterapia ou curetagem — resolve o problema imediato, mas deixa o campo intacto. É como arrancar uma erva daninha e deixar o solo contaminado: novas ervas vão brotar. Por isso, pacientes que tiveram uma queratose actínica frequentemente desenvolvem mais queratoses nos mesmos locais — e por isso pacientes com um carcinoma basocelular têm risco aumentado de desenvolver outros no futuro.
A PDT direcionada ao campo trata toda a área — não apenas a lesão individual. Ao aplicar o fotossensibilizante e a luz em uma região ampla — como toda a face, todo o couro cabeludo ou toda a área do decote —, a terapia elimina tanto as lesões visíveis quanto as células alteradas que ainda não são clinicamente aparentes. O resultado é uma redução significativa no número de novas lesões que surgem nos anos seguintes — um efeito quimiopreventivo que nenhuma outra terapia tópica oferece com a mesma eficácia.
O Dr. Neal Bhatia, na série publicada pelo Dermatology Times, reforçou esse ponto ao afirmar que incorpora a abordagem de campo em sua prática rotineira, tratando não apenas as lesões individuais, mas o campo inteiro de dano actínico.
PDT e Carcinoma Basocelular Superficial — O Que Há de Novo
O carcinoma basocelular é o tipo mais comum de câncer de pele no mundo. A maioria dos casos é tratada com cirurgia — excisão convencional ou cirurgia de Mohs. Porém, um subtipo específico — o carcinoma basocelular superficial (sBCC) — tem características que o tornam candidato a tratamentos não cirúrgicos.
O sBCC é uma lesão plana, rasa, que não invade profundamente a derme. Ele costuma aparecer como uma placa rosada, levemente escamosa, com bordas sutis — muitas vezes confundida com eczema ou psoríase. Por não ter invasão profunda, ele pode responder a tratamentos tópicos e à PDT com taxas de cura elevadas.
Dados recentes — incluindo a aprovação pelo FDA do uso de PDT com luz vermelha e Ameluz (ácido aminolevulínico em gel) para carcinoma basocelular superficial — demonstram que a PDT oferece taxas de clearance previsíveis e boa aderência dos pacientes ao tratamento em consultório. Segundo Bhatia, estudos com fontes de luz vermelha e azul de nova geração estão expandindo as possibilidades de uso da PDT para o sBCC.
Essa abordagem é especialmente relevante para pacientes com múltiplos CBCs superficiais em áreas cosmeticamente sensíveis — como a face — onde cirurgias repetidas geram cicatrizes acumuladas e comprometem a aparência. O cirurgião de cabeça e pescoço encontra essa situação com frequência: pacientes idosos, imunossuprimidos ou com campo de cancerização extenso que se beneficiam de uma alternativa menos invasiva para lesões superficiais — reservando a cirurgia para tumores que realmente a exigem.
Relevância Para a Cabeça e o Pescoço
A região da cabeça e do pescoço é a mais atingida por queratoses actínicas e carcinomas basocelulares porque é a área do corpo que acumula mais exposição solar ao longo da vida. Face, couro cabeludo, orelhas, lábios e pescoço são os locais onde esses tumores aparecem com mais frequência — e onde a preocupação estética é maior.
Para o cirurgião de cabeça e pescoço, a PDT direcionada ao campo representa uma ferramenta complementar que pode reduzir a necessidade de cirurgias repetidas na face. Um paciente com múltiplas queratoses actínicas na face e no couro cabeludo, por exemplo, pode se beneficiar de sessões periódicas de PDT de campo para controlar o surgimento de novas lesões — em vez de submeter-se a criocirurgia ou excisão a cada nova lesão que aparece.
É importante destacar que a PDT não substitui a cirurgia em casos que a exigem. Carcinomas basocelulares nodulares, infiltrativos ou com invasão profunda precisam de excisão cirúrgica com margens. A PDT é uma opção para lesões superficiais selecionadas e para o controle do campo de cancerização — e o cirurgião de cabeça e pescoço é o profissional que avalia qual abordagem é a mais segura para cada lesão e cada paciente.
O Que o Paciente Precisa Saber
A PDT é realizada em consultório, sem anestesia geral e sem cortes. O desconforto durante o procedimento é temporário e controlável. A recuperação leva de uma a duas semanas, com vermelhidão e descamação que se resolvem espontaneamente. O resultado cosmético costuma ser superior ao da cirurgia, com menos cicatriz e melhor textura de pele na área tratada.
O paciente deve evitar exposição solar na área tratada por pelo menos 48 horas após o procedimento e manter proteção solar rigorosa nas semanas seguintes. A pele tratada fica temporariamente mais sensível à luz.
Se você tem múltiplas queratoses actínicas, lesões de pele recorrentes ou histórico de carcinoma basocelular — especialmente na face, no couro cabeludo ou nas orelhas —, converse com seu médico sobre a terapia fotodinâmica. O Dr. Fernando Bitencourt avalia cada caso de forma individualizada e pode indicar se a PDT é uma opção adequada para a sua situação. Tratar o campo — e não apenas a lesão — é investir na prevenção de longo prazo.
Fonte: Dermatology Times — https://www.dermatologytimes.com/view/field-directed-pdt-may-improve-long-term-management-of-actinic-damage-and-superficial-bcc
PERGUNTAS FREQUENTES
Perguntas Frequentes Sobre Terapia Fotodinâmica (PDT)
A terapia fotodinâmica dói? O paciente pode sentir ardência, queimação ou sensação de calor durante a exposição à luz. A intensidade varia de leve a moderada e é controlável com ventilador, borrifos de água fria e pausas curtas. O desconforto dura apenas o tempo da iluminação — geralmente alguns minutos — e desaparece após o procedimento.
A PDT substitui a cirurgia para câncer de pele? Depende do tipo de lesão. Para queratoses actínicas e carcinomas basocelulares superficiais selecionados, a PDT pode ser uma alternativa eficaz à cirurgia. Para tumores invasivos, nodulares ou com margens comprometidas, a cirurgia continua sendo indispensável. O médico avalia caso a caso.
O que é campo de cancerização? É a área de pele ao redor de uma lesão visível que também sofreu dano solar acumulado e contém células pré-malignas — mesmo que não sejam visíveis clinicamente. Tratar o campo inteiro, e não apenas a lesão isolada, reduz significativamente o surgimento de novas lesões no futuro.
Quantas sessões de PDT são necessárias? Depende da extensão e da gravidade do dano actínico. Para queratoses actínicas, uma a duas sessões costumam ser suficientes. Para campo de cancerização extenso, sessões periódicas — a cada seis a doze meses — podem ser recomendadas como manutenção preventiva. O médico define o protocolo individualmente.
A PDT deixa cicatriz? Não. Um dos grandes benefícios da PDT é o resultado cosmético. A terapia preserva o tecido saudável e promove uma cicatrização que melhora a textura e a aparência da pele. Para lesões na face, essa vantagem é especialmente relevante em comparação com a cirurgia.
A PDT está disponível no Brasil? Sim. A terapia fotodinâmica é realizada por dermatologistas e cirurgiões de cabeça e pescoço em consultórios equipados com fontes de luz adequadas. Os fotossensibilizantes — como o ácido aminolevulínico — estão disponíveis no mercado brasileiro. A indicação e o protocolo devem ser definidos pelo especialista.
"Se a PDT é uma opção disponível no consultório, ela precisa estar no mix de algoritmos de tratamento. A preferência do paciente por evitar cicatrizes e preservar a estética é importante, mas a resolução definitiva do tumor à frente dele tem que ser a prioridade."
— Dr. Neal Bhatia
Análise Complementar Sobre Terapia Fotodinâmica (PDT) Direcionada ao Campo
Terapia Fotodinâmica — Como Funciona a Ciência Por Trás do Procedimento A PDT baseia-se na interação entre três elementos: um agente fotossensibilizante, oxigênio tecidual e uma fonte de luz com comprimento de onda específico. Quando a luz ativa o fotossensibilizante absorvido pelas células danificadas, gera espécies reativas de oxigênio que destroem as membranas celulares e induzem a morte celular seletiva. O tecido saudável, que absorve menos fotossensibilizante, é preservado. Esse mecanismo é a base da seletividade da PDT. 🔗 https://www.cancer.gov/about-cancer/treatment/types/photodynamic-therapy
Campo de Cancerização — O Conceito Que Mudou a Abordagem do Câncer de Pele O conceito de field cancerization foi descrito originalmente em 1953 por Slaughter et al. na cavidade oral e posteriormente aplicado à pele. Ele reconhece que o dano solar acumulado afeta grandes áreas de tecido — não apenas o ponto onde a lesão aparece. Essa compreensão levou ao desenvolvimento de terapias direcionadas ao campo, como a PDT, que tratam toda a área comprometida em vez de apenas lesões individuais. 🔗 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3889469/
Queratoses Actínicas — Lesões Pré-Cancerosas Que Exigem Tratamento de Campo As queratoses actínicas (QAs) são lesões pré-cancerosas que se desenvolvem em áreas cronicamente expostas ao sol. Estima-se que entre 5% e 10% das QAs progridam para carcinoma espinocelular se não tratadas. Como as QAs frequentemente aparecem em grande número na mesma região — especialmente na face e no couro cabeludo —, a abordagem de campo com PDT é mais eficiente do que tratar cada lesão isoladamente com crioterapia. 🔗 https://www.aad.org/public/diseases/skin-cancer/actinic-keratoses
FDA Aprova PDT com Ameluz para Carcinoma Basocelular Superficial Em setembro de 2026, a FDA aprovou o uso de PDT com Ameluz (ácido aminolevulínico em gel nanoemulsão) e luz vermelha para o tratamento de carcinoma basocelular superficial. Essa aprovação expandiu formalmente as indicações da PDT para além das queratoses actínicas, consolidando a terapia como opção não cirúrgica para um dos subtipos mais comuns de câncer de pele. 🔗 https://www.dermatologytimes.com/view/fda-approves-ameluz-red-light-pdt-for-superficial-basal-cell-carcinoma
PDT e Resultado Cosmético — Vantagem Sobre a Cirurgia em Áreas Sensíveis Estudos comparativos demonstram que a PDT oferece resultados cosméticos superiores à cirurgia e à crioterapia para lesões superficiais na face. A ausência de corte e sutura elimina o risco de cicatriz cirúrgica — uma preocupação relevante quando as lesões estão em áreas visíveis como nariz, testa, bochechas e orelhas. A pele tratada com PDT costuma apresentar melhor textura e menos alteração pigmentar do que a pele tratada com crioterapia. 🔗 https://www.plasticsurgery.org/