Na minha prática, uma das situações que exige atenção especial é o acompanhamento de pacientes que receberam um transplante de órgão sólido. Rim, fígado, coração ou pulmão podem significar uma nova etapa de vida, mas o tratamento imunossupressor necessário para preservar o órgão também modifica alguns riscos de saúde. Entre eles está o câncer de pele.
Por isso, a possibilidade de usar nicotinamida para câncer de pele como forma de prevenção despertou bastante interesse nos últimos anos. A nicotinamida é uma forma da vitamina B3 e já havia apresentado resultados interessantes na prevenção de novos carcinomas de pele em pessoas de alto risco que não eram transplantadas.
A pergunta parecia lógica: se funciona nessa população, poderia também ajudar pacientes transplantados, justamente aqueles que apresentam risco muito maior?
Foi essa hipótese que um importante estudo publicado no New England Journal of Medicine tentou responder. O resultado, entretanto, mostrou que não podemos simplesmente transportar os benefícios observados em uma população para outra. New England Journal of Medicine
Por que pacientes transplantados apresentam maior risco de câncer de pele?
Depois de um transplante, o paciente precisa utilizar medicamentos que reduzem a atividade do sistema imunológico. O objetivo é impedir que o organismo ataque o órgão transplantado.
Essa imunossupressão é indispensável, mas também reduz parte da vigilância imunológica contra células alteradas pelo sol e outros fatores.
O resultado é um aumento importante do risco de determinados cânceres, especialmente o carcinoma espinocelular da pele.
Uma revisão sistemática publicada em 2024 estimou que receptores de transplantes de órgãos sólidos apresentam um risco de carcinoma espinocelular cutâneo dezenas de vezes maior que o observado na população geral. Isso ajuda a entender por que prevenção e diagnóstico precoce são tão importantes nesse grupo. PubMed
Além disso, esses tumores podem se comportar de maneira mais agressiva em pacientes imunossuprimidos.
Por isso, quando acompanho um paciente transplantado, não penso apenas em descobrir uma lesão quando ela já se tornou evidente. O objetivo é trabalhar com prevenção, identificação de lesões precursoras, acompanhamento periódico e tratamento precoce quando necessário.
É dentro dessa lógica que surgiu o interesse pela nicotinamida para câncer de pele.
Por que a nicotinamida parecia tão promissora?
A nicotinamida participa do metabolismo energético das células e está relacionada aos mecanismos de reparo do DNA.
A radiação ultravioleta produz danos no DNA das células da pele. Além disso, pode produzir imunossupressão local, diminuindo a capacidade da própria pele de responder adequadamente a essas alterações.
Estudos anteriores sugeriram que a nicotinamida poderia favorecer mecanismos de reparação depois da exposição ultravioleta.
O grande impulso veio do estudo ONTRAC, realizado em pessoas imunocompetentes com histórico de câncer de pele. Nesse grupo, a nicotinamida oral reduziu a ocorrência de novos cânceres de pele não melanoma durante o período estudado.
Por isso, começou a surgir interesse no uso de nicotinamida para câncer de pele também em receptores de transplante.
Porém, existe uma diferença fundamental: um paciente transplantado vive sob imunossupressão contínua. Portanto, biologicamente, não podemos assumir que a resposta será igual à de uma pessoa com funcionamento imunológico preservado.
O que o estudo em pacientes transplantados encontrou?
O estudo ONTRANS foi um ensaio clínico multicêntrico, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo.
Os pesquisadores incluíram pacientes transplantados que já apresentavam risco bastante elevado: cada participante havia desenvolvido pelo menos dois carcinomas de queratinócitos nos cinco anos anteriores.
Foram incluídos receptores de transplante renal, hepático, cardíaco ou pulmonar.
Os participantes receberam 500 mg de nicotinamida duas vezes ao dia ou placebo durante 12 meses. Dermatologistas realizaram avaliações a cada três meses.
O objetivo principal era verificar quantos novos carcinomas de queratinócitos surgiriam ao longo de um ano.
No total, 158 pacientes participaram da randomização: 79 receberam nicotinamida e 79 placebo.
Ao final de 12 meses, foram diagnosticados 207 novos carcinomas de queratinócitos no grupo da nicotinamida e 210 no grupo placebo.
Em outras palavras, o estudo não encontrou redução significativa no número total de novos cânceres de pele. Também não houve diferença significativa isoladamente para carcinoma espinocelular, carcinoma basocelular ou queratoses actínicas. New England Journal of Medicine
Esse é um resultado importante porque mostra que, pelo menos naquele ensaio, a nicotinamida para câncer de pele não reproduziu nos transplantados o benefício observado anteriormente em pacientes imunocompetentes.
Isso significa que a nicotinamida definitivamente não funciona?
Aqui precisamos ter cuidado.
O estudo ONTRANS tinha boa metodologia, mas apresentou uma limitação importante: ele foi encerrado antes de atingir o número de participantes inicialmente planejado por dificuldade de recrutamento.
Isso reduz o poder estatístico para identificar benefícios menores.
Depois da publicação, inclusive, pesquisadores escreveram ao New England Journal of Medicine argumentando que seria prematuro concluir definitivamente que a nicotinamida não possui nenhuma utilidade nessa população justamente porque o estudo terminou com uma amostra menor que a planejada. New England Journal of Medicine
Além disso, estudos observacionais mais recentes trouxeram novos sinais de possível benefício.
Uma grande análise publicada em 2025, baseada em dados de mais de 33 mil pacientes, encontrou redução do risco de câncer de pele associada à nicotinamida na população geral analisada. Entretanto, entre os receptores de transplante, não houve redução significativa do risco global. O estudo encontrou apenas um sinal de possível benefício para carcinoma espinocelular quando a nicotinamida era iniciada mais cedo. PubMed
Outro estudo retrospectivo publicado posteriormente encontrou redução de novos carcinomas em transplantados que utilizaram nicotinamida. No entanto, estudos observacionais não oferecem o mesmo grau de certeza de um ensaio clínico randomizado. PubMed
Mais recentemente, uma revisão sistemática que reuniu ensaios randomizados concluiu que, nos receptores de transplante, não houve redução estatisticamente significativa de carcinomas de queratinócitos, carcinomas espinocelulares ou carcinomas basocelulares com nicotinamida. PubMed
Portanto, hoje eu explicaria assim: existe uma justificativa biológica interessante e alguns dados observacionais favoráveis, mas a evidência clínica de melhor qualidade ainda não demonstra claramente que a nicotinamida para câncer de pele previna novos tumores em pacientes transplantados.
Então o que realmente fazemos para prevenir câncer de pele no transplantado?
A prevenção não pode depender de um suplemento isolado.
O primeiro pilar continua sendo fotoproteção.
Isso envolve uso adequado de protetor solar, roupas, chapéus, redução da exposição ultravioleta intensa e atenção especial às áreas cronicamente expostas ao sol.
Além disso, o paciente transplantado precisa conhecer a própria pele.
Uma ferida que não cicatriza, uma lesão que cresce rapidamente, um nódulo endurecido, uma crosta persistente ou uma área que sangra repetidamente merece avaliação.
O acompanhamento dermatológico também precisa ser individualizado. Quem já apresentou múltiplos carcinomas necessita de uma vigilância diferente de quem nunca teve uma lesão maligna.
Quando existem muitas queratoses actínicas, podemos trabalhar com tratamentos de campo e terapias dirigidas às lesões.
Já pacientes que desenvolvem carcinomas espinocelulares repetidamente podem exigir estratégias adicionais.
Um consenso internacional com especialistas em dermatologia de transplantados recomenda, nos pacientes com alta carga de carcinomas espinocelulares ou tumores de alto risco, discutir medidas como acitretina e até possíveis modificações da imunossupressão em conjunto com a equipe responsável pelo transplante. PubMed
Essa última decisão nunca deve ser tomada apenas pelo dermatologista ou cirurgião. Alterar a imunossupressão pode afetar a segurança do órgão transplantado e precisa envolver a equipe de transplante.
Nicotinamida para câncer de pele deve ser tomada por conta própria?
Não.
O fato de a nicotinamida ser uma vitamina não significa que todo paciente transplantado deveria começar a utilizá-la.
Além disso, nicotinamida não é exatamente a mesma coisa que niacina. São formas diferentes da vitamina B3, com perfis farmacológicos diferentes.
Outro ponto importante é que o paciente transplantado geralmente já utiliza diversos medicamentos. Portanto, qualquer nova substância deve ser discutida com os médicos responsáveis.
Na minha visão, o ponto principal da discussão sobre nicotinamida para câncer de pele não é decidir se ela é “boa” ou “ruim”.
A pergunta correta é: existe evidência suficiente para indicar essa estratégia para este paciente específico?
Hoje, em receptores de transplante, a resposta exige muito mais cautela do que em determinados pacientes imunocompetentes de alto risco.
O acompanhamento precisa ser mais rigoroso depois de um câncer de pele?
Sim.
Um paciente transplantado que já apresentou um carcinoma espinocelular ou basocelular mostrou, na prática, que possui um ambiente de risco aumentado para desenvolver novas lesões.
Por isso, o primeiro tumor não deveria ser visto apenas como um episódio isolado que terminou depois da cirurgia.
Ele também funciona como um marcador de risco.
Quando avalio esses pacientes, considero número de tumores anteriores, velocidade com que surgem novas lesões, localização, características histológicas, quantidade de dano solar e tipo de imunossupressão.
Tumores de maior risco também podem exigir uma estratégia cirúrgica mais criteriosa.
Em determinados casos, técnicas como a cirurgia micrográfica de Mohs podem ser úteis porque permitem avaliar as margens cirúrgicas de maneira muito precisa, preservando o máximo possível de tecido saudável.
Portanto, prevenção, acompanhamento e tratamento cirúrgico fazem parte do mesmo plano.
Conclusão
A possibilidade de utilizar nicotinamida para câncer de pele em pacientes transplantados é um excelente exemplo de como a medicina evolui.
Primeiro surgiu uma hipótese biologicamente plausível. Depois vieram resultados positivos em pacientes imunocompetentes. Naturalmente, imaginamos que o benefício poderia se repetir em receptores de transplantes.
Quando o estudo clínico específico dessa população foi realizado, porém, a diferença não apareceu.
Isso não significa que a discussão esteja definitivamente encerrada. Estudos observacionais recentes ainda apontam sinais que merecem investigação. No entanto, quando analisamos os ensaios randomizados disponíveis, não existe até agora uma redução comprovada de novos carcinomas de pele nos receptores de transplante.
Por isso, nicotinamida para câncer de pele não deve substituir aquilo que já sabemos funcionar na prática: fotoproteção rigorosa, acompanhamento dermatológico, diagnóstico precoce, tratamento das queratoses actínicas e planejamento individual para pacientes que desenvolvem múltiplos tumores.
Para quem recebeu um transplante, qualquer estratégia preventiva também precisa respeitar uma regra fundamental: a pele não pode ser analisada isoladamente do transplante.
Dermatologista, cirurgião, equipe transplantadora e demais especialistas precisam trabalhar juntos.
O objetivo é proteger a pele sem comprometer o órgão que permitiu ao paciente continuar sua vida.
Perguntas frequentes
A nicotinamida previne câncer de pele em pessoas transplantadas?
Até o momento, os ensaios clínicos randomizados não demonstraram redução significativa de novos carcinomas de pele em receptores de transplantes de órgãos sólidos. Existem estudos observacionais posteriores que sugerem possível benefício em alguns cenários, mas ainda não oferecem evidência suficiente para uma recomendação universal.
Qual foi a dose estudada de nicotinamida?
No estudo ONTRANS, os participantes receberam 500 mg de nicotinamida duas vezes ao dia durante 12 meses. Isso não significa que essa dose deva ser utilizada sem avaliação médica.
Nicotinamida e niacina são a mesma coisa?
Não exatamente. Ambas estão relacionadas à vitamina B3, mas são formas diferentes e possuem efeitos e perfis de efeitos adversos distintos.
Por que transplantados têm mais câncer de pele?
A imunossupressão necessária para evitar a rejeição do órgão reduz parte da vigilância imunológica contra células alteradas. A exposição solar acumulada e o tipo e duração da imunossupressão também participam do risco.
Qual câncer de pele preocupa mais em pacientes transplantados?
O carcinoma espinocelular cutâneo merece atenção especial porque sua incidência aumenta expressivamente nessa população e alguns tumores podem apresentar comportamento mais agressivo.
Todo transplantado precisa passar frequentemente pelo dermatologista?
A frequência depende do perfil de risco, histórico de câncer de pele e características individuais. Quem já apresentou múltiplos tumores normalmente precisa de acompanhamento mais próximo.
O paciente pode reduzir os imunossupressores para diminuir o risco de câncer?
Nunca por conta própria. Modificações na imunossupressão podem colocar o órgão transplantado em risco e só devem ser consideradas em conjunto com a equipe responsável pelo transplante.
Nicotinamida substitui protetor solar?
Não. Mesmo nos grupos em que existe evidência de benefício da nicotinamida, ela não substitui fotoproteção, acompanhamento e tratamento adequado das lesões.
“A terapia oral com nicotinamida não levou a um menor número de carcinomas de queratinócitos ou queratoses actínicas.”
- Allen e colaboradores
O estudo ONTRANS não demonstrou benefício da nicotinamida em transplantados
O ensaio clínico mais importante sobre o tema incluiu 158 receptores de transplante que já haviam apresentado pelo menos dois carcinomas de queratinócitos nos cinco anos anteriores. Foram comparados nicotinamida 500 mg duas vezes ao dia e placebo durante um ano. O número de novos cânceres foi praticamente idêntico: 207 no grupo nicotinamida e 210 no placebo. O estudo também não encontrou diferença significativa em carcinoma espinocelular, carcinoma basocelular ou queratoses actínicas. New England Journal of Medicine
O encerramento precoce do estudo é uma limitação importante
O ONTRANS foi planejado como um ensaio de fase III, mas o recrutamento ocorreu mais lentamente do que o esperado e o estudo terminou antes de atingir a amostra originalmente planejada. Posteriormente, pesquisadores argumentaram no próprio New England Journal of Medicine que essa limitação dificulta concluir que a nicotinamida seja definitivamente inútil nessa população. Portanto, “não demonstrou benefício” é uma afirmação mais correta do que “foi comprovado que não funciona”. New England Journal of Medicine
Link: New England Journal of Medicine — Correspondência sobre nicotinamida em transplantados
Evidências mais recentes ainda não confirmaram benefício nos transplantados
Uma revisão sistemática recente analisou separadamente pacientes imunocompetentes e receptores de transplantes. Nos transplantados, a combinação dos ensaios randomizados disponíveis não mostrou redução significativa do total de carcinomas de queratinócitos, carcinoma espinocelular ou carcinoma basocelular. Esse é um dado importante porque impede transformar a nicotinamida em recomendação universal para essa população. PubMed
Estudos observacionais trouxeram sinais interessantes, mas não resolvem a dúvida
Uma grande análise publicada em 2025 estudou mais de 33 mil pacientes e encontrou associação entre nicotinamida e menor risco de câncer de pele na população analisada. Entre os transplantados, entretanto, não houve redução significativa do risco global. Um sinal de benefício apareceu para carcinoma espinocelular quando o tratamento foi iniciado mais precocemente. Como o desenho foi observacional, esses resultados geram novas hipóteses, mas não substituem ensaios randomizados. PubMed
Link: PubMed — Nicotinamide for Skin Cancer Chemoprevention
Outro estudo retrospectivo encontrou redução de novos carcinomas
Um estudo de pacientes transplantados publicado mais recentemente observou redução na incidência de carcinomas de queratinócitos depois do início da nicotinamida, especialmente carcinoma espinocelular e carcinoma espinocelular in situ. Entretanto, como não se trata de um ensaio randomizado controlado, diferenças entre os pacientes e outras intervenções podem influenciar os resultados. É mais uma peça interessante do quebra-cabeça, não uma resposta definitiva. PubMed